domingo, 29 de novembro de 2009

"para onde vai você? de onde você vem? aonde quer chegar? são questões inúteis. fazer tabula rasa, partir ou repartir do zero, buscar um começo, ou um fundamento, implicam uma falsa concepção da viagem e do movimento (metódico, pedgagógico, iniciático, simbólico...)"
mil platôs 1, rizoma, p.36
temporando, aconteço a partida. tempo muda, vento muda.
falta nada quase e nada me prende, como também nada me captura. já estou pairando, sobre as coisas, fora delas, desprendido, descolado. aos poucos. alguma sensação no estômago me vem quando penso que estou indo que isso é um movimento que já é maior que eu. olho algumas situações com um ar de despedida, vejo nelas despedidas. olho as coisas, as minha coisas, e percebo que nem são tão minhas, e que delas pouco ou nada vou ou posso carregar. as coisas são prisões, os carinhos são prisões, os nomes são prisões, os passados, os armários, os quartos, os cômodos, as caligrafias, as línguas, os livros, as famílias, os percursos estabelecidos, os lugares organizados dos objetos, as estantes, os tapetes, as camas, esse teclado, os cães, as mães, os pais, as irmãs, as calçadas, a árvore e o sussurro calmo dela em frente a minha janela, a minha janela, a porta, os vizinhos, as coisas de infância, as fotos. nisso tudo me acomodo, cavo lugares, invento abrigos, postos onde posso estar calmo, estar apaziguado mesmo quando perturbado, mas apaziguado na repetição, no mesmo. em tudo isso um conforto, que se faz a custo de um distanciamento, de mediações quase infinitas entre o "eu" e o estar mesmo no mundo. conforto absoluto. trajetórias que antevejo nesse conforto do plano realizável. isso tudo me prende, não porque eu queira, mas porque é da forma de ser disso tudo prender. mas penso que tudo isso está ficando. e que já estou pairando, amando também essas coisas, mas deslizando por entre elas. e indo. é como se eu não tivesse mais que organizar nada, ou que escolher o que é lixo ou o que jogo fora ou o que coloco em qual ou tal lugar. porque nada ou quase pode ser leve e pairar junto comigo. aliás, o movimento é já por si, autônomo: eu sou pairado por ele. (isso me lembra que às vezes, à noite, sentava num banquinho de minha rua olhando a luz nas árvores e pensando como Uma vida é autônoma, independente, de como ela vai e vai e corre escorre e vive por caminhos que nem sabemos). no fim, não posso carregar. meu objetivo - aliás, o objetivo do meu movimento é uma leveza nunca antes vivida em mim. nisso, todo peso é perverso. por isso, me desprendo concreta e metaforicamente das minhas coisas-rotinas-trajetórias e futuros já determinados e pré-estabelecidos. a sensação de zero, de nada carregar. é o que me pede o movimento... será possível?