sexta-feira, 2 de abril de 2010

(Alguns rabiscos que se escreveram no inverno quando saí de Trento rumo a Bergamo. A entrada da primavera muda tanto a paisagem e a atmosfera afetiva da cidade, que é estranho ler isso hoje. Os contornos carregados também se devem ao fato de que foi escrito na chegada em Bergamo, ou seja, se devem a uma comparação inevitável entre as duas paisagens-cidades. Há um exagero no 'fechamento' de Trento, mas acho que embora seja um exagero do ponto de vista da descrição, não o é do ponto de vista do impacto positivo da saída, etc. A ideia na verdade era escrever sobre Bergamo, esse rascunho sobre Trento seria meio que uma forma de começar a falar da outra cidade, comparando)

Trento é uma cidade fenomelogicamente truncada, apertada entre as montanhas que a cercam, não conhece o que não são extremos. As ruas como que espremidas pelas montanhas que se fazem escuras sempre cedo, na sombra delas, não abrigam ou inscrevem as vidas, mas as faz sobrevoar, pairar - fantasmagorias ressequidas pelo tempo da passagem. É uma cidade quase sem árvores, no centro, e é uma cidade seca: não devaneia com facilidade (ainda que a paisagem o proponha) - o olhar é aprisionado pelas pesadas montanhas e desconhece o horizonte. Trento luta com as montanhas e parece se esforçar em estar nessa outra figura do deserto que é a montanha (todo o deserto exerce algum tipo misterioso de fascínio). Trento é árida: a aridez do espaço que não se deixa apropriar. Trento é quase violenta e beligerante: ela é de onde se ataca, a partir dela se desafia os alpes - assim fizeram romanos, austro-húngaros, alemães, italianos. O extremismo inconciliável de Trento é também sua impossibilidade de ser de todo germânica ou itálica - é o seu estar aprisionada entre, no meio do caminho. É uma cidade quase sem cheiros, árida mesmo no ar de que dispõe e respira.

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